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MENSAGENS E REFLEXÕES

AMOR À VIDA

 

Bispo Sebastião Elias

 

"Quem ama a sua vida perdê-la-á, e quem neste mundo despreza a sua vida, guardá-la-á para a vida eterna". (Jo 12.25)

Segundo o diagnóstico dos reformadores do século XVI, o problema central do ser humano era a justiça própria. Foi a partir dessa conclusão, que eles estabeleceram a “Justificação pela fé” como a bandeira principal do cristianismo protestante.

Se fosse possível ao homem salvar-se mediante boas obras, isso retroalimentaria seu orgulho, prendendo-o para sempre em um ciclo do pecado. Somente a graça é capaz de romper com este ciclo, pois a mesma é um golpe desferido por Deus no orgulho humano, salvando-o de si mesmo. Embora concorde com as doutrinas defendidas pelo protestantismo histórico, acredito que houve um erro de diagnóstico. O problema humano não repousa sobre a justiça própria, na verdade, a justiça própria equivale a um remédio errado que foi ministrado em cima de um sintoma.

Sabemos, pelas Escrituras, que o problema humano se chama “pecado”. Ainda que o conceito seja exclusivo das religiões originárias em Abraão (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo), todas as outras religiões concordam que alguma coisa esteja errada com o ser humano. E todas elas, exceto o cristianismo bíblico, acreditam que o remédio para isso é a justiça própria. Para superar sua alienação espiritual, o homem teria que praticar boas obras, que expressassem seu senso de justiça e retidão.De acordo com as Escrituras, nossas boas obras são como trapos de imundícia (Is.64.4). Era assim que se chamava o pano usado pelas mulheres para conter o fluxo menstrual. Em outras palavras, nossas boas obras são uma tentativa inútil de conter nossa hemorragia espiritual. E por melhores que sejam,estão sempre manchadas pelo nosso pecado. Por isso, a salvação não poderia ser pelas obras, pois elas estariam manchadas pelo nosso orgulho e vaidade. 

Quando os reformadores se aperceberam disso, resolveram combater a justiça própria, mostrando aos homens que a única maneira de serem salvos é confiar na justiça divina, demonstrada na cruz, onde Cristo recebeu nossos pecados e suas consequências, e nos imputou Sua justiça e santidade. Aos olhos de Deus tornamo-nos justos, a despeito de nossas obras, quando reconhecemos nossa bancarrota, e nos fiamos na justiça de Seu Filho Jesus. É pela fé, e tão somente por ela, que Sua justiça é computada em nossa conta. Até aí, tudo bem. Não há o que rebater. Basta ler Romanos, Gálatas, e toda a Bíblia, para dar-se conta de que a justificação pela fé é uma doutrina imprescindível e inegociável. A Justificação pela Fé estanca a hemorragia provocada pelo pecado, mas não nos cura de nossa anemia. É importante combater a justiça própria, pois ela nada mais é do que um placebo, um “me-engana-que-eu-gosto”. 

É importante estancar a hemorragia, em vez de tentar contê-la com boas obras, mas, acima de tudo, é importante restaurar a saúde espiritual do ser humano. E pra isso, tem-se que combater o pecado. E o que seria o “pecado”? Ora, o termo “pecado” significa “errar o alvo”.Mas acerca de que alvo estamos falando? Qual o alvo original estabelecido por Deus à criatura humana? Essa resposta pode ser encontrada nos dois principais manda-mentos de Deus. Eles se constituem no alvo de nossa existência. “...Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o primeiro e grande mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos depende toda a lei e os profetas” (Mt.22.37-40). Eis o alvo! Fomos feitos para o amor. E o alvo deste amor é Deus, e, por conseguinte, nossos semelhantes. Porém, ao cair, o homem desvirtuou o alvo, e introduziu um novo alvo: seu próprio eu. Todos os pecados têm no egocentrismo seu ponto de partida.

Por exemplo, a mentira. Geralmente, a mentira visa a autopromoção ou a auto-preservação. O indivíduo mente para promover-se, exagerando em seus dotes, enfatizando suas proezas, ou mente para proteger-se. Portanto, a mentira é filha do egoísmo. E o adultério? Quem se entrega a uma relação adúltera busca por auto-satisfação, sem se importar com a dor que causará ao seu cônjuge e filhos. Autopromoção, auto-preservação e auto-satisfação são os principais alvos estabelecidos pelo egocentrismo. Para sanar estes males, em vez de buscar ajuda do Alto, o homem pós-moderno prefere acreditar em seu próprio potencial para resolver todos os seus problemas, mas o antídoto para a justiça própria é a graça. Através dela a justiça humana é desbancada, e em seu lugar é entronizada a justiça de Deus.E qual seria o antídoto para o egoísmo? O antídoto para egoísmo é a cruz. Os reformadores protestantes enfatizaram a morte de Jesus em nosso lugar, mas se esqueceram de dar igual ênfase à nossa co-crucificação. Dizer que Jesus morreu por nós é a mais pura verdade, mas não expressa toda a verdade. Ele morreu por nós, mas nós também fomos crucificados com Ele. O apóstolo Paulo conjuga com maestria essas duas verdades: “Pois o amor de Cristo nos constrange, julgando nós isto: um morreu por todos, logo todos morreram. E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressurgiu” (II Co 5:14-15).

O amor revelado na cruz deve constranger-nos a ponto de não mais vivermos para nós. A cruz é um golpe fatal no egoísmo. Paulo compreendeu isso perfeitamente: “Estou crucificado com Cristo, e já não vivo eu, mas Cristo vive em mim. A vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim” (Gl.2.20). Como Jesus pôde entregar-Se de tal maneira por gente que sequer merecia? Jesus estabeleceu um novo referencial de amor. Antes da cruz, a referência mais eloquente que o homem tinha era o amor a si mesmo, mas agora, Jesus o desbancou, entregando-Se por nós sem reservas. E é este o tipo de amor que devemos dispensar aos nossos semelhantes.

Através da cruz somos salvos não apenas da condenação do inferno, ou da ira divina, mas somos salvos de nós mesmos. Pelas pisaduras de Cristo, fomos curados de nossa hemorragia e de nossa anemia espiritual. Agora somos instados a amar a Deus sobre todas as coisas e aos nossos semelhantes da maneira como Ele nos amou. Tudo isso sugere que o que a igreja cristã necessita não é de mais uma reforma, nos moldes do século XVI, mas de uma revolução de amor, onde o egoísmo seja deposto, e em seu lugar seja entronizado o Novo Mandamento de Jesus.



Autor/
Hermes C. Fernandes
Adaptado/
por Bispo Elias

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