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MENSAGENS E REFLEXÕES

O PRESBITERATO

 

Bispo Sebastião Elias

 

UM PANORAMA BÍBLICO E HISTÓRICO DO PRESBITERATO

INTRODUÇÃO


Uma rápida leitura do Novo Testamento deixa claro o quanto os presbíteros eram importantes na igreja primitiva. O livro de Atos dos Apóstolos, as Epístolas Pastorais e as Epístolas Gerais fazem muitas referências a eles como os líderes das primeiras igrejas cristãs. As informações disponíveis deixam claro que cada comunidade era governada por um grupo ou concílio de presbíteros, que exerciam atividades de administração, supervisão, orientação, disciplina e pastoreio das igrejas.


Todavia, não encontramos em nenhum lugar a instituição desse ofício, a maneira como surgiu nas igrejas. Ele simplesmente aparece repentinamente nas páginas do Novo Testamento. De onde teria vindo a inspiração para essa prática? Qual a origem do presbiterato cristão? Desde o Antigo Testamento o sistema de governo é exercido através de anciãos (presbíteros). Tanto Moisés, como os sacerdotes e levitas, os juízes e os reis de Israel, eram auxiliados pelos “anciãos de Israel” (Êx 3:16-18; 4:39; 17:5-6; 18:13-17; 19:7; 24:1, 9-11; Lv 4:15; 9:1-2; Nm 11:14-25; Dt 5:23; 22:15-17; 27:1; Js 7:6; 8:33; Jz 21:16; 1 Rs 8:1-3; 1 Cr 21:16; Sl 107:32; Ez 8:1). Este era o exercício comum de governo do povo de Deus na antiga Aliança.

A prática do povo de Israel de ser governado pelos anciãos (presbíteros) continuou no Novo Testamento. O julgamento de Jesus foi realizado, quando “reuniu-se a assembléia dos anciãos do povo, tanto os principais sacerdotes como os escribas, e o conduziram ao Sinédrio...” (Lc 22:66; veja também At 22:5).

Nosso objetivo é mostrar a evolução do presbiterato ao longo do tempo, começando com o judaísmo, passando pelo cristianismo primitivo e prosseguindo ao longo da história da igreja.


1. PRECURSORES


1.1 Os anciãos no Antigo Testamento

A liderança através de um concílio de homens chamados “presbíteros” ou “anciãos” era muito familiar aos judeus e a todos os leitores do Antigo Testamento. O concílio de anciãos era uma das instituições mais antigas e fundamentais de Israel, desde a época do cativeiro egípcio. Eles eram os representantes oficiais do povo, daí serem denominados “anciãos de Israel” ou “anciãos dos filhos de Israel”, como vemos em Êxodo 3.16,18; 4.29 e 12.21, que são as primeiras referências a eles na Bíblia. Também eram chamados “anciãos do povo” (Êx 19.7) e “anciãos da congregação”, ou seja, a congregação de Israel (ver Lv 4.15).

Uma passagem especialmente significativa é Números 11.16-17, 24-25, que narra como Deus designou 70 anciãos para serem auxiliares diretos de Moisés na tarefa de “levar a carga do povo”. Estavam associadas aos anciãos as idéias de sabedoria, maturidade e discernimento (1 Rs 12.6-13).

Embora não haja uma explicação da sua origem, nomeação ou qualificações, esses anciãos são mencionados cerca de 100 vezes no Antigo Testamento. Seu papel fundamental de liderança fica evidente em sua participação ativa de cada evento decisivo da história de Israel. Desde antes do Êxodo os anciãos exerceram liderança e autoridade entre o povo. Deus reconheceu o seu papel de liderança enviando Moisés primeiramente a eles para anunciar a libertação do cativeiro (Êx 3.16). O governo através de anciãos era particularmente apropriado para uma sociedade patriarcal, orientada para a família, como era o caso de Israel, e continuou a existir depois que Moisés e Josué concluíram a tarefa de introduzir o povo na Terra Prometida.

Quando Israel se fixou em Canaã, cada cidade, cada tribo e a nação como um todo tinha um conselho de anciãos (ver Dt 19.12; 21.3,6,19; Sl 107.32; Ez 8.1). Como líderes da comunidade, eles deviam:
proteger o povo, exercer disciplina, fazer cumprir a lei de Deus e administrar a justiça. Segundo a lei mosaica e a prática tradicional, os anciãos exerciam ampla autoridade em questões civis, domésticas e religiosas. A função dos anciãos como um corpo judicial é descrita nas seções legislativas do Antigo Testamento. De modo especial, o livro de Deuteronômio apresenta muitas situações específicas que exigiam o julgamento e a orientação dos anciãos (Dt 21.19; 22.15-18). Os anciãos deviam conhecer a lei, responsabilizar-se (com os sacerdotes) por comunicá-la ao povo e assegurar que ela fosse obedecida (Dt 27.1-8; 29.10; 31.9-11). Entre outras funções, eles serviam como testemunhas (Rt 4.2,9,11).

Os anciãos participaram de alguns dos acontecimentos mais marcantes da história de Israel, como a conquista de Canaã (Js 7.6; 8.10,33), a unção de Davi como rei de Israel (2 Sm 5.3), a reforma de Josias (2 Rs 23.1) e a reconstrução dos muros e do templo de Jerusalém (Ed 5.5,9; 6.7s,14). Eles estavam entre várias categorias de líderes, como os chefes, juízes e oficiais (Js 23.2; 24.1). Por suas ligações com os sacerdotes, também eram denominados “anciãos dos sacerdotes” (2 Rs 19.2; Is 37.2; Jr 19.1).


1.2 Os anciãos na época de Jesus

Na época de Jesus, os anciãos continuavam tomando parte destacada na vida de Israel, tanto no âmbito local quanto nacional. Eles ainda conservavam o antigo título de “anciãos do povo” (Mt 21.23). Os anciãos locais são mencionados apenas uma vez nos evangelhos (ver Lc 7.3). Todas as outras referências a anciãos judeus nos evangelhos e em Atos estão associadas ao Sinédrio de Jerusalém.


A palavra
presbítero é uma transliteração do grego presbyterós, que significa literalmente ancião. No Novo Testamento, quando se refere à liderança da Igreja Cristã, indica uma pessoa que possuí um ofício de autoridade, mas, em outros contextos do grego coinê,pode-se referir simplesmente a um homem idoso. A palavra presbyterion encontrado em (Lc 22:66; At 22:5 e 1 Tm 4:14) significa concílio de anciãos”. O ofício de presbítero certamente possuí antecedentes patriarcais e se originou no judaísmo, onde é a designação de uma classe social, não sendo necessariamente a liderança realizada somente por homens idosos, mas idôneos. A palavra indica no Novo Testamento não a maturidade biológica, mas a espiritual, ou seja, não especificamente a sua idade, mas a transformação que o cristão alcançou sobressaindo-se aos demais, deixando de ser considerado neófito (1 Tm 3:6.)

O Sinédrio era o supremo tribunal do povo judeu e estava dividido em três grupos: sumos sacerdotes, escribas e anciãos (Mc 11.27; 15.1). José de Arimatéia provavelmente era um desses anciãos (ver Mc 15.43). O Sinédrio também é descrito no Novo Testamento como a “assembléia dos anciãos do povo” (Lc 22.66) e o “senado dos filhos de Israel” (At 5.21), uma tradução da palavra grega presbyterion.

A imagem dos anciãos nos evangelhos sinóticos é bastante negativa pelo fato de terem ocupado um papel de destaque na rejeição e morte de Jesus (ver Mt 16.21; 26.3,47,57; 27.1,3,12,20,41; etc.). Em Atos, os apóstolos são levados várias vezes diante dos anciãos do Sinédrio, que os questionam sobre a sua mensagem e atividades (At 4.5,8,23; 6.12; 25.15). De qualquer maneira, percebe-se que a estrutura de governo por meio dos anciãos era muito familiar aos cristãos judeus.



2. O PRESBITERATO NO NOVO TESTAMENTO

2.1 Os presbíteros cristãos judeus em Atos dos Apóstolos

Ao adotarem essa forma de governo bem conhecida, os apóstolos certamente não agiram de modo arbitrário.
O sistema de governo pelos anciãos (presbíteros) foi mantido num processo natural de continuidade da antiga para a nova Aliança na Igreja Cristã. Paulo não inventou um novo sistema de governo para as igrejas que implantou, apenas o adaptou para uma perspectiva e necessidade cristã. A pluralidade de anciãos (presbíteros) em cada igreja local era o padrão estipulado para que aquela comunidade pudesse ser governada. Esta era a prática de Paulo (At 14:23), e foi assim que ele instruiu os pastores que lhe sucederam (2 Tm 2:2; Tt 1:5).

 A oração e a direção do Espírito Santo levaram os Doze e a igreja de Jerusalém a estabelecerem a liderança por meio de um conselho de anciãos. Esses anciãos cristãos também conhecidos como “presbíteros”. No livro de Atos, vemos os presbíteros de Jerusalém no exercício de algumas importantes atribuições:


2.1.1 Recebem e administram recursos materiais
 (At 11.29-30). Essa é a primeira referência aos presbíteros cristãos no Novo Testamento. O texto informa que nos dias do imperador Cláudio (ano 47) houve uma grande fome em todo o mundo, que deixou muitos crentes da Judéia em situação de penúria. Os cristãos de Antioquia resolveram socorrer esses irmãos carentes, enviando uma oferta aos presbíteros de Jerusalém por meio de Saulo e Barnabé. Isso mostra que esses presbíteros eram os representantes oficiais da igreja.

2.1.2 Julgam questões doutrinárias
 (At 15.1-29). Nessa famosa passagem, os presbíteros ocupam uma posição muito mais destacada. Uma nova e próspera igreja havia surgido em Antioquia da Síria, composta de judeus e gentios. Alguns judaizantes desceram da Judéia para Antioquia e disseram aos crentes gentios que eles só poderiam ser salvos se recebessem a circuncisão. Depois que Paulo e Barnabé tiveram uma grande discussão com eles, resolveu-se levar o assunto aos “apóstolos e presbíteros”, em Jerusalém. Estes se reuniram e debateram longamente a questão (o “Concílio de Jerusalém”), tomando por fim uma decisão sábia e ponderada que foi comunicada por escrito à igreja de Antioquia, restaurando a paz nessa comunidade cristã. Atos 16.4 mostra que, durante a 2ª viagem missionária, Paulo e Timóteo transmitiram às igrejas fundadas na viagem anterior essas importantes decisões dos apóstolos e presbíteros da Jerusalém 

O texto de Atos 15 mostra claramente o papel de liderança, deliberação e orientação espiritual exercido pelos presbíteros na igreja-mãe, ao lado dos apóstolos. Eles ouvem e julgam questões doutrinárias, ajudam a resolver conflitos, protegem a igreja de falsos mestres e assumem responsabilidade pelas doutrinas ensinadas pelos membros do seu rebanho. Portanto, eles devem ser homens sadios no juízo e conhecedores da verdade.

2.1.3 Oferecem conselho e resolvem conflitos
 (At 21.18-25). Em uma nova visita de Paulo a Jerusalém (ano 57), surge uma questão explosiva: a acusação inverídica de que Paulo estava ensinando os cristãos judeus a desprezarem a lei de Moisés. Os presbíteros, como líderes da igreja, trataram do problema de maneira sábia e criteriosa. Eles conceberam um plano (ver v. 23-25) mediante o qual Paulo pôde negar publicamente as críticas falsas e os presbíteros puderam manter a sua deliberação anterior sobre a salvação dos gentios e a coexistência pacífica entre judeus e gentios. Mais uma vez fica evidente a importância do colegiado de presbíteros na liderança da igreja.

2.2 Os presbíteros cristãos gentios em Atos dos Apóstolos
Além dos presbíteros judeus cristãos, o livro de Atos também faz algumas referências aos primeiros presbíteros das igrejas dos gentios. A primeira dessas referências se encontra em Atos 14.23, onde se diz que, no final da primeira viagem missionária, Paulo e Barnabé promoveram a eleição de presbíteros em cada uma das igrejas que haviam estabelecido (Antioquia da Pisídia, Icônio, Listra e Derbe). Essa é a primeira vez que se fala sobre a instituição do presbiterato em igrejas locais.

Fica claro que os missionários, orientados pelo Espírito Santo, entenderam que essa era a melhor forma de governo para as novas comunidades cristãs. Conclui-se também que essa prática foi seguida em todas as igrejas que Paulo fundou, bem como naquelas fundadas pelos seus colaboradores (ver Tt 1.5). Devido ao seu ministério itinerante, Paulo entendia a importância estratégica da nomeação de presbíteros que pudessem cuidar das novas igrejas que iam nascendo. Ao instalar presbíteros em cada igreja, Paulo seguiu a prática da igreja de Jerusalém e de outras congregações cristãs judaicas (ver Tg 5.14). Ele escolheu essa forma de liderança coletiva por meio dos presbíteros – e não uma liderança individual – por entender que ela melhor se adaptava à natureza das igrejas cristãs locais. A palavra grega “cheirotoneo” (traduzida por “promover a eleição”) sintetiza todo o processo de selecionar, examinar e instalar esses líderes.

Certamente a passagem mais importante sobre o presbiterato no livro de Atos, e talvez em todo o Novo Testamento, é Atos 20.17-38. Esse texto contém o discurso de despedida de Paulo aos presbíteros da igreja de Éfeso, reunidos em Mileto, no final da última viagem missionária do apóstolo. Paulo mostra a esses líderes quem eles são e o que Deus os chama a realizar (20.28). Ele também fala do seu próprio trabalho entre eles como um exemplo e uma inspiração para esses líderes.


2.2.1 Foi o próprio Deus quem os colocou à frente da igreja
. De modo característico, Paulo apresenta o fundamento doutrinário para o trabalho dos presbíteros: a vontade soberana do Espírito, o valor imenso da igreja, a cruz de Jesus Cristo e o ataque inevitável dos falsos mestres. Não foi a igreja nem os apóstolos quem deu esse encargo aos presbíteros. Embora tenha havido a participação de instrumentos humanos nesse processo, o responsável principal pela colocação dos mesmos à frente do rebanho foi o Espírito Santo.

2.2.2 Sua tarefa é supervisionar e administrar o povo de Deus
. Essa é uma das passagens que demonstram que, na igreja apostólica, “presbítero” (ancião) e “bispo” (supervisor) eram designações das mesmas pessoas (ver também 1 Tm 3.1-2,8; Tito 1.5-7). Segundo Paulo, na qualidade de bispos, os presbíteros são responsáveis pela supervisão, proteção, administração e cuidado do rebanho de Deus. Fazendo isso, eles estarão seguindo o exemplo do supremo Pastor e Bispo, o próprio Cristo (1 Pe 2.25).

2.2.3 De modo especial, eles devem pastorear o rebanho
. A imagem do pastoreio associa as idéias de autoridade e liderança com as de abnegação, bondade, sabedoria, esforço, cuidado amoroso e vigilância constante. “Pastorear” significa governar a igreja de Deus, proporcionar liderança e orientação à igreja, ensinar e corrigir com base na Palavra de Deus e oferecer proteção contra os perigos que ameaçam a vida da igreja.

2.2.4 Eles também devem proteger o rebanho de Deus
. Um dos seus principais deveres é a vigilância constante, primeiro sobre si mesmos e depois sobre a igreja. Eles devem cuidar da sua própria vida espiritual, andando diariamente com Deus e alimentando-se por meio da oração e da Palavra. Assim, estarão em condições de cuidar do bem-estar espiritual do rebanho e de protegê-lo dos “lobos vorazes”, dos perigos que o ameaçam na forma de pecados e distorções da fé.

2.2.5 Eles devem estar conscientes do grande valor da igreja.
Ela é a “igreja de Deus”: não pertence aos presbíteros, aos apóstolos ou a qualquer pessoa. Deus chamou à existência o seu rebanho e o protege, sustenta e nutre. A redenção da igreja custou a Deus um alto preço: o sangue de Cristo. Assim, os presbíteros são os mordomos e administradores que o Senhor colocou à frente do seu povo e devem estar conscientes da grande honra e da imensa responsabilidade que isso representa.

2.3 O presbiterato nas epístolas

2.3.1 Nas epístolas pastorais

Embora os presbíteros não sejam mencionados explicitamente nas cartas de Paulo às igrejas (temos apenas uma referência aos bispos em Fp 1.1), existem várias referências altamente significativas a eles nas epístolas pastorais. Partindo do fato claramente estabelecido de que presbíteros e bispos são os mesmos oficiais, temos uma primeira referência a esses oficiais em 1 Timóteo 3.1-7, onde existe uma detalhada enumeração das suas qualificações morais, intelectuais e espirituais para esse elevado ofício. Dois capítulos adiante (1 Tm 5.17-20), Paulo fala das obrigações mais importantes dos presbíteros (liderança, orientação, ensino) e dos perigos a que estão sujeitos. Na carta a Tito, Paulo exorta esse colega mais jovem a constituir presbíteros em todas as igrejas e arrola mais uma vez as qualificações que os mesmos devem ter (1.5-9). Existe uma referência coletiva a esses líderes – o “presbitério” – em 1 Tm 4.14.


2.3.2 Nas epístolas gerais

As últimas referências aos presbíteros no Novo Testamento são encontradas nas epístolas gerais. Tiago 5.14 fala das responsabilidades pastorais desses líderes em relação aos enfermos, orando por eles e ungindo-os com óleo em nome Senhor. A última passagem, encontrada em 1 Pedro 5.1-4, é muito importante por várias razões: (a) o apóstolo Pedro dá testemunho da existência de presbíteros em diversas regiões da Ásia Menor (ver 1.1); (b) o chamado “príncipe dos apóstolos” se apresenta como um presbítero igual aos demais; (c) à semelhança de Paulo em Atos 20, Pedro mostra que a principal responsabilidade dos presbíteros é “pastorear o rebanho de Deus” e fazê-lo de modo espontâneo, desinteressado e exemplar; (d) em assim fazendo, eles estarão seguindo o exemplo do Supremo Pastor.



3. O PRESBITERATO NA IGREJA ANTIGA E MEDIEVAL

3.1 Presbíteros e bispos

A partir do início do segundo século, começaram a ocorrer alterações significativas no ofício de presbítero. A primeira delas foi a diferenciação entre presbíteros e bispos, com o surgimento da figura do bispo monárquico. Cada igreja passou a ter um único bispo como o líder principal, ao lado e acima dos presbíteros e dos diáconos. Foi o início de uma estruturação hierárquica do ministério cristão. De pastores que haviam sido no início, os presbíteros passaram a ser auxiliares dos bispos. Alguns exemplos bem conhecidos desses bispos monárquicos do segundo século são Inácio de Antioquia, Policarpo de Esmirna e Irineu de Lião.


3.2 Presbíteros sacerdotes

A segunda alteração substancial do presbiterato cristão foi a transformação dos presbíteros em clérigos. Inicialmente eles eram membros comuns das igrejas, os representantes eleitos do povo ou da congregação. Com o passar do tempo, passaram a fazer parte do “clero”, uma categoria distinta dos “leigos”, os cristãos comuns. Os presbíteros do Novo Testamento se transformaram nos sacerdotes da Igreja Católica Romana, os párocos que ficavam à frente das igrejas locais. Viviam uma vida diferente dos fiéis, devendo agora ser celibatários, em contraste com os presbíteros originais, que viviam normalmente em família. Na Igreja Ortodoxa, os sacerdotes não precisaram se tornar celibatários, a menos que aspirassem ao episcopado.



4.  O PRESBITERATO REFORMADO


A Reforma Protestante restaurou o presbiterato cristão ao seu modelo bíblico original que havia sido distorcido ao longo do período antigo e da Idade Média. Isso aconteceu principalmente na Reforma Suíça ou Movimento Reformado, cujos líderes iniciais foram Ulrico Zuínglio e João Calvino.

A forma de governo reformada ou presbiteriana passou a ser regida pelas seguintes características básicas: (a) Bíblica – deriva da Escritura, conforme entendida pela teologia reformada e expressa nas confissões da fé reformada. O ministério exercido nessa forma de governo procede do Novo Testamento, sendo distribuído de acordo com os dons dos membros: proclamação – ministros da Palavra; governo – presbíteros; serviço – diáconos. (b) Corporativa – o processo deliberativo e decisório é sempre colegiado e não individual. As decisões acerca da vida, teologia e missão da igreja são tomadas em concílios dirigidos por “moderadores” e constituídos de presbíteros e ministros da Palavra em condição de paridade. (c) Representativa – o governo é exercido por assembléias deliberativas (conselho, presbitério, sínodo, assembléia geral) compostas de pastores e presbíteros, sendo estes últimos representantes do povo.


4.1 Suíça

João Ecolampádio, o reformador de Basiléia, foi o primeiro a tentar instituir para fins de disciplina um presbiterato independente das autoridades civis (1530). Suas idéias pouco depois foram adotadas por Martin Bucer, em Estrasburgo, que defendeu a nomeação de presbíteros ou anciãos dentre os homens mais piedosos e íntegros da comunidade para serem responsáveis pela disciplina ao lado dos pastores e de representantes do poder civil. Em ambos os casos, houve resistência das autoridades civis.

As idéias de Bucer influenciaram João Calvino, que desde 1537 pediu a nomeação de alguns fiéis de boa reputação para ficarem encarregados da disciplina em Genebra. Regressando de sua estadia em Estrasburgo, ele redigiu as Ordenanças Eclesiásticas(1541), que previam a existência de quatro ofícios na igreja: pastores, mestres/doutores, presbíteros e diáconos. O dever primordial dos presbíteros era a disciplina eclesiástica, por causa da preocupação reformada de que a comunidade cristã vivesse para a glória de Deus.

Esses presbíteros eram escolhidos dentre os conselheiros municipais até o número de doze e constituíam junto com os pastores o Consistório, que se reunia semanalmente para regular a vida moral, sendo geralmente presidido por um dos síndicos. Todavia, somente em 1555 e mais especificamente em 1561, com a revisão das Ordenanças, o reformador conseguiu impor as suas idéias e a igreja conquistou o direito de excluir (excomunhão). As práticas da igreja de Genebra se tornaram um modelo para outras igrejas reformadas.

Os presbíteros foram vistos desde o início como representantes do povo, sendo ao mesmo tempo comissionados por Deus. Bucer insistiu que fossem representantes de todos os tipos de pessoas. O ofício era considerado espiritual, os presbíteros não sendo denominados ministros, mas reconhecidos como exercendo um ministério. Quanto à base bíblica, Calvino apelou para textos como 1 Tm 5.17 (duplo presbiterato), Rm 12.8 e 1 Co 12.28 (dom de “governo”, especialmente no exercício da disciplina) e 1 Co 5.4 (administração da disciplina não ao arbítrio de um indivíduo, mas de um colegiado). Para o reformador, os pontos fundamentais da ordem eclesiástica eram questões de fé.


4.2 França

A Disciplina da Igreja Reformada da França foi promulgada pela primeira vez em 1559. Os presbíteros eram nomeados no próprio Consistório e, não havendo objeção por parte da congregação, eram ordenados com oração solene, em pé diante do púlpito. Seu ofício era, junto com os pastores, supervisionar a igreja, zelar pela freqüência dos membros ao culto público e à Ceia, informar erros de conduta e julgar os acusados. Os mandatos eram breves, mas os presbíteros eram incentivados a permanecer no ofício por tanto tempo quanto possível. Mediante nomeação, podiam tomar assento nos concílios superiores da igreja. Na celebração da Ceia, havendo falta de pastores, os presbíteros e diáconos, “sendo os braços e as mãos do pastor”, podiam ajudar na distribuição dos elementos.


4.3 Holanda

Na Holanda, entre os anos de 1564 e 1571 foi criado um sistema de governo eclesiástico baseado em Genebra e muito semelhante ao dos huguenotes, no qual o presbítero tinha o seu devido lugar. Ele possuía consideráveis responsabilidades pastorais e devia manter estreito contato com as pessoas do seu distrito para promover o conhecimento e a prática da fé cristã.


4.4 Escócia

Quanto à Escócia, João Knox e seus companheiros estavam a par das práticas de diferentes igrejas reformadas. De acordo com o Primeiro Livro de Disciplina (1560), os presbíteros deviam ser “homens com o melhor conhecimento da Palavra de Deus e a vida mais limpa, homens fiéis e de conduta mais honesta que possam ser encontrados na igreja”. Devia haver “eleição comum e livre” (a eleição era anual, sendo habitual a reeleição). A função do presbítero (e do diácono) era “assistir o ministro em todas as questões públicas da igreja”, particularmente na disciplina eclesiástica e na administração dos assuntos gerais da igreja. O consistório tinha um papel central na eleição dos ministros e exercia a disciplina sobre todos, inclusive os ministros.

O Segundo Livro de Disciplina (1578) fala do presbiterato como “uma função espiritual tal qual o ministério”, acrescentando que “os presbíteros, uma vez legalmente chamados ao ofício e tendo os dons de Deus adequados para exercer o mesmo, não devem abandoná-lo”, embora nem todos os presbíteros tivessem de estar na ativa. O lugar dos presbíteros nos concílios superiores da igreja é deixado claro. Quanto à disciplina, corretamente entendida, consistia no interesse pelo bem-estar espiritual e moral do indivíduo e da comunidade e no estabelecimento de um padrão cristão de pensamento e conduta. Conforme diz o Segundo Livro de Disciplina: “Como os pastores e os doutores devem ser diligentes em ensinar e plantar a semente da Palavra, assim os presbíteros devem ser zelosos em buscar o seu fruto nas pessoas”.

Peculiaridades do Segundo Livro de Disciplina: (a) criação do “presbitério”, a grande contribuição da Escócia à forma de governo presbiteriana; (b) o presbitério era composto de pastores, doutores e presbíteros; (c) os diáconos perderam as suas responsabilidades de governo; (d) o consistório passou a denominar-se “presbiterato da igreja” ou “sessão” (conselho); (e) o presbiterato passou a ser vitalício.

Um dos documentos aprovados pela Assembléia de Westminster, A Forma de Governo Eclesiástico Presbiterial (1645) afirma o seguinte: “Como havia na Igreja Judaica anciãos do povo unidos aos sacerdotes e aos levitas no governo da Igreja, assim Cristo, que instituiu o governo e líderes eclesiásticos na Igreja, supriu alguns em sua Igreja, além dos ministros da Palavra, com dons de governo e com o encargo de exercê-los quando chamados para isso, os quais devem associar-se ao ministro no governo da igreja, oficiais esses que as igrejas reformadas geralmente denominam presbíteros”. O texto-prova acrescentado foi 2 Cr 19.8-10. Ver ainda a Confissão de Fé, 31.1.

 

4.5 Estados Unidos
Nos Estados Unidos, já no século 18 algumas igrejas possuíam presbíteros. Ao formar-se o Presbitério de Filadélfia (1706), somente compareceram ministros, mas nas reuniões seguintes houve a presença de presbíteros. Quando foi criada a Assembléia Geral (1788), adotou-se uma constituição que incluía uma “Forma de Governo”. Um breve capítulo, “Dos Presbíteros Regentes”, que permaneceu inalterado por quase um século, afirmava: “Os presbíteros regentes são os representantes do povo escolhidos por este com o propósito de exercerem governo e disciplina em conjunto com os pastores ou ministros. Esse ofício tem sido entendido por grande parte das igrejas protestantes reformadas como designado nas Escrituras Sagradas com o título de governos, e se refere àqueles que presidem bem, mas não se afadigam na palavra e no ensino”. Os textos aduzidos são 1 Tm 5.17; 1 Co 12.18, bem como Rm 12.7-8 e At 15.25.

Os indivíduos que eram eleitos e se diziam dispostos a aceitar o ofício eram investidos no mesmo durante um culto público. Após o sermão, respondiam as perguntas constitucionais e então eram consagrados mediante uma oração, seguindo-se uma exortação aos mesmos (não se fala em imposição de mãos).

No século 19 muito se escreveu sobre o assunto, em parte devido a controvérsias. O Dr. Samuel Miller, do Seminário de Princeton, afirmou que uma das vantagens da existência dos presbíteros era proteger o pastor da tentação de assumir excessivo poder e autoridade. Ele argumentou a favor da imposição de mãos pelos presbíteros na ordenação de presbíteros e diáconos, mas não na ordenação de pastores. Outra questão era a obrigatoriedade ou não da presença de presbíteros para o quorum de uma reunião de presbitério. Charles Hodge e James H. Thornwell debateram essas questões.

Quando a Igreja do Sul (PCUS) adotou o Livro de Ordem Eclesiástica (1879), a posição dos presbíteros na vida da igreja recebeu maior ênfase: eles deviam ser ordenados mediante imposição de mãos, deviam participar da imposição de mãos na ordenação dos ministros e deviam fazer parte do quorum para o funcionamento dos concílios. A Igreja do Norte (PCUSA) foi mais lenta no sentido de fortalecer esse ofício. Na década de 1870, debateu-se se os presbíteros podiam ser moderadores de concílios. A decisão final foi que sim.


4.6 Brasil

Ao criar-se o Sínodo da Igreja Presbiteriana do Brasil (1888) foi adotado o Livro de Ordem da Igreja do Sul, com sua maior ênfase ao ofício do presbítero. No entanto, antes e depois disso, a participação dos presbíteros nos concílios da igreja esteve aquém do desejável. Em toda a longa história da IPB, somente um presbítero ocupou a presidência do concílio maior da igreja (Dr. Paulo Breda Filho, 1978-1986).


Fontes:
Alderi Souza de Matos
www.mackenzie.br
Ewerton B. Tokashiki

prtokashiki@gmail.com
www.palavrapreexistente.com.br
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